O Reggae e a preservação na Ilha do Algodoal - Um cantinho do Pará.
Você conhece a Ilha de Maiandeua? Não? Pois então você tem que conhecer Marcelo Costa, da ONG Suatá, que luta pela preservação dessa Ilha, famosa pela abundância de uma planta conhecida como "Algodão de Seda". A Ilha do Algodoal como é apelidada, tem uma forte ligação com o Reggae. Com vocês um pouco da história de um cantinho do Pará.
Guia do Reggae - Marcelo, explique um pouco sobre o Projeto e quais os principais problemas ecológicos que a Ilha de Maiandeua sofre.
Marcelo – A ONG Suatá vem trabalhando para defender e valorizar a identidade cultural das quatro comunidades que habitam a APA de Algodoal-Maiandeua e conservar o patrimônio natural e histórico da ilha, buscando o seu desenvolvimento sustentável de forma a promover um modelo que possa servir a outras comunidades da Amazônia. A ausência do poder público na ilha está sendo decisiva para a exploração de um turismo predatório, excludente e desordenado. Portanto, ao invés de se tornar uma das alternativas de sustentabilidade econômica do local, está sendo um de seus principais problemas.
GR - Como surgiu a idéia da criação da ONG e quais os beneficios que ela já conquistou para a população nativa?
Marcelo – A partir das discussões mantidas na “internet” acerca dos problemas da Ilha de Maiandeua, que desde 1990 é uma unidade de conservação da natureza, alguns amigos se reuniram em torno de um ideal e resolveram, em fevereiro de 2005, fundar a ONG Suatá. Em junho do mesmo ano, por ocasião de um festival de música (reggae e rock), promovido pela Rádio e TV Cultura do Pará, que levou milhares de veranistas à ilha, tivemos a oportunidade de realizar, em parceria o Grupo Ambiental de Fortalezinha – GAF, a campanha educativa “Cultura Ambiental”. Cerca de 85 pessoas da comunidade trabalharam durante todo o mês de julho como agentes ambientais, orientando visitantes e moradores a manterem um comportamento ecologicamente correto no interior de uma Área de Proteção Ambiental. Para isso, receberam treinamento de profissionais com longa experiência em diversas áreas, com por exemplo, educação e meio ambiente. Além disso, persuadimos o poder público, pelo menos durante o período do evento, a implementar um projeto de coleta e destinação final de resíduos sólidos e líquidos, sob a responsabilidade técnica de um engenheiro sanitarista.
GR - Como a população da Ilha está interagindo com o projeto.
Marcelo – De início, a comunidade local ficou um pouco receosa de ser mais uma ONG que surgiu para tirar proveito da situação de descaso e auferir vantagens indevidas. Todavia, em 2006, após promovermos uma ação civil pública ambiental, contra os três entes da federação (União, Estado e Município), responsáveis solidários pela manutenção e a conservação do meio ambiente da ilha, conseguimos colocar em evidência a força que a sociedade civil organizada tem nas mãos. Agora, na medida em que as discussões ambientais avançam, especialmente após a criação, por determinação judicial, do Conselho Gestor da APA, que é formado por representantes da comunidade e do poder público, e também devido dos primeiros resultados dos estudos preliminares do Plano de Manejo, nosso grupo vem conseguindo se firmar no trabalho, promovendo a idéia de que os problemas que a comunidade vem enfrentando, somente serão solucionados com a participação efetiva de todos, ou seja, das associações locais e dos poderes públicos constituídos.
GR - E a relação dos turistas com a preservação e com os habitantes da Ilha?
Marcelo – Infelizmente, em termos ambientais, a situação não é boa, principalmente com a chegada da energia elétrica na ilha, que acabou por atrair um número cada vez maior de pessoas. Como ainda não há coleta regular de lixo, o que se vê é uma quantidade absurda de detritos por todos os lugares, após o final de cada temporada. Acredito que é preciso ser feito um trabalho de impacto com os visitantes da APA, a fim de que os mesmos tenham a consciência e os cuidados devidos com o lixo produzido por cada um de nós.
GR - Qual a relação da Ilha com o Reggae e quem são os regueiros em ação por ai?
Marcelo – Sem dúvida é o ritmo que mais se houve por lá. Muitos artistas já fizeram músicas em homenagem à ilha. Existe, inclusive, uma casa cultural chamada de “Raiz do Mangue”, do DJ Varela, que é nativo. Lá já se apresentaram várias bandas de Belém. E por falar no circuito regueiro da minha cidade, atualmente a “Cidade das Mangueiras” conta com várias bandas, como por exemplo a Jaafa Reggae, Gaia na Gandaia, Cristal Reggae, IêmanJah entre outras..
GR - Existe uma divulgação bacana da música Reggae nas rádios e tv da região?
Marcelo – Existe um programa da Rádio Cultura chamado “Sunsplash Radio Reggae”, há mais 15 anos no ar. Seu apresentador é o Toni Soares, um dos maiores incentivadores da cultura reggae no Pará. As rádios comerciais, apesar do techno-brega, têm se rendido ao ritmo e, vez por outra, tocam um ou outro reggae.
GR - O Reggae Algodoal, de Ivan Cardoso, foi tema da Campanha Cultura ambiental em 2005. Como foi a divulgação dessa bela música e as conquistas dessa campanha.
Marcelo – O Ivan é uma pessoa abençoada e foi muito feliz ao compor esta música. Pedimos a ele que gravasse uma música com a cara de Algodoal, que é a principal vila da Ilha de Maiandeua, para que fosse tema de nossa campanha educativa. De fato a música caiu no gosto dos ouvintes, mas como não foi para o circuito comercial, ficou restrita a tocar no âmbito da Rádio Cultura. Gravamos vários CDs com diversas músicas e distribuímos na ilha. Por onde se andava, ouvia-se a música. Foi muito legal essa experiência da campanha, principalmente pela redução da quantidade de lixo jogado na ilha e da divulgação da necessidade de preservação do meio ambiente. E neste aspecto eu gostaria de dizer que, além de paz e amor, a música reggae presta um serviço relevantíssimo à comunidade ao transmitir mensagens de preservação. Bob Marley já fazia isso. Edson Gomes em “Vem me ragar mãe”. Seu Jorge, na música Água, também faz. É muito importante que nossos artistas e bandas, não só as de reggae, continuem incluindo o tema em suas letras. Reggae e meio ambiente tem tudo haver.
GR - Além do Reggae quais os ritmos que predominam na Ilha?
Marcelo – Várias são as bandas que tocam em Algodoal nos períodos de férias e feriados prolongados, boa parte delas toca pop-rock. Mas o ritmo que é mais marcante não vem de fora, pois é feito pelos próprios nativos da ilha. Trata-se do carimbó. Utilizando enormes tambores feito de toras de madeira, juntamente com os seus chocalhos, que na região são chamados de maracas, e mais o acompanhamento de banjo e saxofone ou clarinete, o carimbó está na alma do povo paraense, em especial na dos que vivem na Região do Salgado, onde fica localizada a APA de Algodoal-Maiandeua.
GR - A cultura paraense é rica por si só. Na sua opinião o que fez com que o Reggae recebesse a aceitação que recebe por ai?
Marcelo – Creio que um dos fatores predominantes deve ter sido a aproximação com o Estado do Maranhão, a Jamaica brasileira. A existência de um litoral com muitas praias também influenciou bastante para a disseminação do ritmo. Mas a nossa cultura cabocla, de um povo pobre e sofrido que, de certa forma, é esquecido e espoliado pelos grandes centros do poder, foi determinante para que nossa população se identificasse com os versos de Marley, a principal referência do reggae no mundo. O reggae inclui protesto, indignação, além de mensagens de amor e paz. Tudo isso costuma vir a tona quando se sente na pele a dor da exclusão.
GR - Voltando ao Projeto, como o que fazer para participar.
Marcelo – Basta acessar www.suata.org ou www.algodoal.com.br e obter mais informações sobre a ilha e como ser um agente Suatá.
GR- Obrigado amigo e parabéns pelo Trabalho!
Marcelo - Consciência ambiental e muita paz e amor no coração dos leitores do Guia do Reggae. Valeu!
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