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 Socialismo
Prof. Bernardo Kocher 
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O EUROCOMUNISMO


O fim da era de ouro[1] foi o período em que se desfez qualquer vestígio do movimento internacional dedicado à revolução mundial, já que após 1956 a URSS começou a perder o monopólio e a hegemonia sobre o apelo revolucionário e sobre a análise teórica que unificava o internacionalismo socialista e proletário. Como fizeram os outros partidos comunistas ocidentais, o PCI começou a distanciar-se mais abertamente da influência da esfera soviética. Neste contexto surge o Eurocomunismo. 

A fracassada tentativa de reformas na Tchecoslováquia em 1968, sufocada durante a Primavera de Praga e a ascensão do socialismo no Chile em 1970 pela via eleitoral, exerceram grande influência sobre a vida interna do PCI.Na primavera de 1973 o partido lançou um programa cuja essência, segundo o então secretário geral, Enrico Berlinguer, marcava não só a recusa definitiva da hegemonia soviética sob o movimento comunista internacional, como também da estratégia bolchevique para revolução social na Itália: era o eurocomunismo[2]. Por sinal, o próprio PCI foi o precursor deste movimento na Europa Ocidental, pois nos primeiros anos da década de 1970 o partido estimava que somente por meio de uma aliança com os democrata-cristãos, então no Governo, é que poderia ser desencadeada a trajetória de transição para o socialismo na Itália. Esta aliança seria formada em torno de um vigoroso programa de reformas democráticas[3], ao mesmo tempo em que buscava uma adequação programática do partido em duas frentes: a hegemonia soviética no campo socialista e o sucesso da social-democracia no ocidente.

Tanto quanto outros partidos comunistas ocidentais como o PCF e PCE , o PCI buscava organizar-se para uma reação frente ao movimento comunista internacional no sentido de adequar-se às transformações na estrutural social do capitalismo avançado, que conquistou gradualmente o apoio da classe operária nas décadas do pós-guerra, desmobilizando-a de seus propósitos de ruptura com o sistema democrático parlamentar. 

Paralelamente, buscava estabelecer-se no campo socialista como uma alternativa viável que sobrevivesse ao desgaste imposto pela hegemonia soviética frente ao movimento comunista internacional, o que já acumulava um grande ônus para os comunistas ocidentais, já desde 1956, quando do advento do XX Congresso do PCUS, além dos acontecimentos que cercaram a revolta húngara, a cisão sino-soviética e a invasão da Tchecoslováquia em 1968.Todas estas medidas faziam-se pertinentes no que diz respeito as avaliações dos rumos da revolução russa e do estágio em que se encontrava o socialismo na URSS. 

No início dos anos 70, era provavelmente mais tênue o sentimento de que bastava administrar o capitalismo na Itália, a espera de um colapso capitalista mundial e a conseqüente expansão do socialismo para além das fronteiras da esfera soviética. Se este sentimento era forte nos primeiros anos do pós-guerra, onde uma expectativa de retomada expansionista soviética juntava-se ao prestígio que esta desfrutava por ser reconhecidamente a grande responsável pela derrota da nazi-fascismo, no fim da Era de Ouro este sentimento era posto em cheque pelas próprios episódios onde a URSS teve oportunidade de atuar no cenário político internacional. 

A esses fatores somava-se o quadro interno da Itália, e o PCI concluiu que seu êxito político dependeria, a partir de então, de sua capacidade de atrair novos eleitores, além da classe operária, em particular, dos novos segmentos médios, e de estabelecer alianças funcionais com outras forças políticas no âmbito do cenário nacional italiano. As esperanças iniciais do eurocomunismo, no entanto, acabaram por frustrar-se na década de 80. Depois de importantes conquistas eleitorais e da participação no bloco parlamentar majoritário, embora não no governo em 1976, o partido obteve poucas vantagens do democrata-cristãos em troca de seu apoio parlamentar. 

Em 1980, frente a um impasse político e aos efeitos da crise econômica, seu eleitorado e sua massas, particularmente entre os sindicatos entraram em declínio. Não obstante, o PCI insistiu no caminho eurocomunista, embora o compromisso histórico tenha sido substituído pelo renascimento da união da esquerda com o PSI (Partido Socialista Italiano). Assim em 1981 o PCI rompeu drasticamente com o PCUS devido da declaração da lei marcial na Polônia, denunciada como uma tentativa de destruição o Sindicato Solidariedade. Este fato reafirmava o esgotamento das energias progressistas da revolução russa. A partir de então, tornava-se imperativa uma terza via eurocomunista para o socialismo. 

Assim, o eurocomunismo saudado na década de 70 com uma nova trajetória plausível para o êxito da esquerda, dividida entre os caminhos até então pouco promissores do comunismo e da social-democracia, deu mostras de séria debilidade na década de 80, assumido no primeiro momento pelo PCI, mostrando-se posteriormente bastante enganoso e ineficaz mesmo diante de um relativo sucesso político. Ele representou a busca do PCI por um novo internacionalismo, desta vez organizado a partir dos países do capitalismo avançado, até então esperança da revolução russa, e que jamais aconteceu de fato. Era a busca de um novo consenso no meio do movimento socialista internacional, rejeitando o exemplo soviético, principalmente no que diz respeito ao planejamento da vida econômica[4] e à organização política da sociedade. Apoiava-se nas benesses do Welfare State, as quais forneciam os elementos necessários para consolidar uma aliança de classes aparentemente duradoura e estável, o que possibilitava à classe operária e às suas entidades representativas resultados sociais plenamente satisfatórios na Itália do pós-guerra. Acreditava-se sobretudo na forma de sistema democrático-representativo republicano parlamentarista predominante em toda Europa Ocidental, conduzidos pela social-democracia[5], que assume a herança social-democrata a partir da 2ª metade dos anos 60. Esta opção assumiu uma espécie de ossatura no chamado compromisso histórico[6]. 

Vale ressaltar que o eurocomunismo incorporou valiosas questões ao debate socialista, desde a possibilidade de os comunistas terem ou não de ser o braço dirigente na marcha rumo ao socialismo, ou seja, o policentrismo, até a busca reconstruição do universo simbólico destruído pela degenerescência do sistema soviético, repensando o binômio socialismo-democracia.  


[1] Segundo Hobsbawn, período compreendido entre 1947-1973.

[2] Segundo Tom Bottomore, o Eurocomunismo caracterizava-se por um movimento de mudança estratégica e teórica iniciado na década de 70 por vários partidos comunistas dos países capitalistas ocidentais, como os partidos de massa da Itália, da Espanha e da França, bem como por numerosos partidos menores, em reação, a priori, ao XX Congresso da Partido Comunista Soviético (PCUS), em 1956, quando da revelação do Relatório Kruschev, e aos acontecimentos que o cercaram como a revolta húngara, a revolta polonesa e outras revoltas ocorridas nas sociedade socialistas, além da cisão sino-soviética.

[3] Ver NAPOLITANO, Giorgio. O Partido Comunista Italiano, o socialismo e a democracia (Entrevista a Eric Hobsbawn).
 
[4] Contra a planificação da economia.

[5] Social-democracia que a partir do Congresso de 1959 atingiu um estágio no revisionismo no qual ela própria reconhece ter abandonado o marxismo, por ter rompido com a maioria dos seus princípios elementares.

[6] Expressão que propositalmente substitui bloco histórico, alternativo àquele composto pelos industriais do Norte e os grande latifundiários do Sul da Itália, o qual segundo Gramsci surge a partir da reflexão em torno das forças sociais que poderiam levar à frente na Itália um projeto de revolução socialista de caráter nacional-popular, reunindo a classe operária do norte e o campesinato do sul. Este último identificado ideologicamente como as massas populares, fortemente arraigadas ao catolicismo, quer na forma de dominação ideológica através da própria religião, quer na forma de dependência econômica, já que a Igreja possuía grande influência juntos aos grande proprietários de terra, e também nomeava e ocupava importantes cargos no Estado, controlando-o em larga medida, em função muitas vezes, de interesses externos, em detrimento dos regionais. O que não se consolidara ainda, era a organização das massas católicas em torno de seu braço institucional, pois mesmo a democracia-cristã italiana ainda não fortificara as bases do catolicismo social, o que seria feito na medida em que a Igreja sentiu a necessidade de desenvolver uma doutrina social que suscitasse uma alternativa dentre outros fatores ao comunismo soviético.

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